dezembro 08, 2010

O Cão e a Melancia

Quando morávamos na roça, houve uma temporada de chuvas intensas.
Era muita água desabando do céu dia após dia, sem trégua.
Pela fresta da janela víamos o mundaréu molhado, o nível da água da represa subindo, ilhas formadas de aguapés deslizando velozmente levadas pela  correnteza barrenta. 
A plantação se deteriorando.
Nossos pais angustiados.
E para nós crianças, ávidos em interagir com a natureza do amanhecer até a mais tênue luz da tarde, foram dias de férias mais monótonas e  intermináveis.
 Tanto quanto os tristes gorjeios de alguns pássaros vindos do matagal vez ou outra.


Os nossos cavalos Shirô e Kurô, relinchavam a toda hora, chacoalhando a crina encharcada.  
Os porcos se misturavam ao lamaçal que invadia o chiqueiro.
As galinhas punham cada vez menos ovos.
A gata Mikê, demasiadamente determinada, ao entardecer se alongava diante do morno fogão onde estivera dormindo e saia para caçar, indiferente ao tempo ou à  temperatura.  


Queríamos os cachorros soltos, mas por falta de bom comportamento, assustando as galinhas, roubando os ovos, correndo pelas plantações ou cavando buracos, principalmente nos canteiros de mudas de plantas,  ficavam presos como guardiões em vários cantos estratégicos próximos à moradia, granjas e galpões.

Um deles, o Pôti ( pronuncia-se Pôti e não Poty), tinha pelos curtos, cor de caramelo,  barriga bem côncava, focinho negro e olhar melancólico.
Logo abaixo da nossa moradia havia uma pequenina casa de pau-a-pique.
Pôti morava do lado de fora dessa casinha.
Numa dessas noites de temporal ele não resistiu.
Naquela manhã, todos nós sentimos impotentes ao vê-lo mudo, gélido e durinho, estendido na poça d'água.
E a chuva, indiferente a tudo, continuou na mesma intensidade e nada pudemos fazer.

Dias depois, quando a chuva deu uma trégua, eu e meu irmão decidimos fazer ao menos um funeral para o pobre cão.
Arrastamos o corpo por entre lamaçal e matos encharcados até o matagal mais próximo.
E lá deixamos o Pôti, debaixo de um velho coqueiro repleto de formigas apressadas e famintas, mas ao doce aroma de coquinhos maduros espalhados pelo chão recobertos de folhas.
Alguns bem-te-vis, sabiás, tico-ticos, rolinhas curiosos  espiavam tristes por entre os galhos das árvores...nenhum gorjeio...

Cabisbaixos, retornamos contornando a pequena plantação de melancias que no auge do crescimento esbanjavam as frutas roliças por entre as ramas verdejantes.

Mamãe, sensibilizada com a nossa atitude, decidiu nos gratificar com uma melancia.
A nossa dor se dissipou no vento daquela tarde.
Parecíamos dois coelhos, correndo pela plantação, olhos ainda inchados de tanto chorar.
Íamos encostando a orelha e estalando os dedos nas maiores e de ramos secos. 
Cambaleando carregamos a melancia até a mesa da sala.
 Continuamos falando do Pôti mas de olho na suculenta melancia que papai ia fatiando...
 

 Perdoa-nos, Pôti, 
éramos crianças...


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