dezembro 09, 2010

Antoine de Saint Exupéry - Acaso

"Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho,
pois cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida, passa sozinho,
mas não vai só nem nos deixa sós.
Leva um pouco de nós mesmos, 
deixa um pouco de si mesmo.
Há os que levam muito,
mas há os que não levam nada.
Essa é a maior responsabilidade de nossa vida,
e a prova de que duas almas não se encontram ao acaso."

Antoine de Saint Exupéry 
1900-1944

dezembro 08, 2010

O Cão e a Melancia

Quando morávamos na roça, houve uma temporada de chuvas intensas.
Era muita água desabando do céu dia após dia, sem trégua.
Pela fresta da janela víamos o mundaréu molhado, o nível da água da represa subindo, ilhas formadas de aguapés deslizando velozmente levadas pela  correnteza barrenta. 
A plantação se deteriorando.
Nossos pais angustiados.
E para nós crianças, ávidos em interagir com a natureza do amanhecer até a mais tênue luz da tarde, foram dias de férias mais monótonas e  intermináveis.
 Tanto quanto os tristes gorjeios de alguns pássaros vindos do matagal vez ou outra.


Os nossos cavalos Shirô e Kurô, relinchavam a toda hora, chacoalhando a crina encharcada.  
Os porcos se misturavam ao lamaçal que invadia o chiqueiro.
As galinhas punham cada vez menos ovos.
A gata Mikê, demasiadamente determinada, ao entardecer se alongava diante do morno fogão onde estivera dormindo e saia para caçar, indiferente ao tempo ou à  temperatura.  


Queríamos os cachorros soltos, mas por falta de bom comportamento, assustando as galinhas, roubando os ovos, correndo pelas plantações ou cavando buracos, principalmente nos canteiros de mudas de plantas,  ficavam presos como guardiões em vários cantos estratégicos próximos à moradia, granjas e galpões.

Um deles, o Pôti ( pronuncia-se Pôti e não Poty), tinha pelos curtos, cor de caramelo,  barriga bem côncava, focinho negro e olhar melancólico.
Logo abaixo da nossa moradia havia uma pequenina casa de pau-a-pique.
Pôti morava do lado de fora dessa casinha.
Numa dessas noites de temporal ele não resistiu.
Naquela manhã, todos nós sentimos impotentes ao vê-lo mudo, gélido e durinho, estendido na poça d'água.
E a chuva, indiferente a tudo, continuou na mesma intensidade e nada pudemos fazer.

Dias depois, quando a chuva deu uma trégua, eu e meu irmão decidimos fazer ao menos um funeral para o pobre cão.
Arrastamos o corpo por entre lamaçal e matos encharcados até o matagal mais próximo.
E lá deixamos o Pôti, debaixo de um velho coqueiro repleto de formigas apressadas e famintas, mas ao doce aroma de coquinhos maduros espalhados pelo chão recobertos de folhas.
Alguns bem-te-vis, sabiás, tico-ticos, rolinhas curiosos  espiavam tristes por entre os galhos das árvores...nenhum gorjeio...

Cabisbaixos, retornamos contornando a pequena plantação de melancias que no auge do crescimento esbanjavam as frutas roliças por entre as ramas verdejantes.

Mamãe, sensibilizada com a nossa atitude, decidiu nos gratificar com uma melancia.
A nossa dor se dissipou no vento daquela tarde.
Parecíamos dois coelhos, correndo pela plantação, olhos ainda inchados de tanto chorar.
Íamos encostando a orelha e estalando os dedos nas maiores e de ramos secos. 
Cambaleando carregamos a melancia até a mesa da sala.
 Continuamos falando do Pôti mas de olho na suculenta melancia que papai ia fatiando...
 

 Perdoa-nos, Pôti, 
éramos crianças...


Burburinhos da Roça e Muito Mais...

(1)
"Saudade é a certeza de ter vivido e sentido o que algum dia em algum lugar, nos marcou pra valer" ( autor desconhecido)

A frase acima me remete às tantas lembranças dos tempos idos da nossa infância, quando nossos pais e nós cinco irmãos morávamos no Bairro Cachoeira,  zona rural da cidade de Ibiúna.
Um lugar longe de tudo, de tudo mesmo. 
Os vizinhos, a cidade, as escolas, o conforto, os desejos, os sonhos, tudo ficava muito distante.
Em compensação, junto, dentro de uma natureza belíssima, nem mais nem menos.
Exatamente no melhor lugar daquela região.
Da nossa casa avistávamos um imenso mar de água doce.
Matas ainda nativas e montanhas contornavam a represa.
Havia espécies de vegetais e animais em abundância. 
 Uma enorme cachoeira.
Uma pequena praia.
A natureza nos acolhia dia e noite.
Mesmo contando em muitos e muitos  versos e prosas, nenhum de nós conseguirá traduzir todas as singularidades vivenciadas durante a nossa longa estadia por aquela terra
inesquecível.
Foram anos de lutas, enfrentando muitas intempéries do destino.
Mas, apesar de todas as dificuldades, o primordial para nossos pais era a educação dos filhos.
E conforme íamos crescendo, frequentávamos a escola da cidade, caminhando muitos quilômetros pela estrada de terra.
Ao retornarmos para casa, cada um sabia das suas tarefas na roça e somente a noite é que estudávamos sob a tênue luz de lampiões à querosene.
Mas ninguém nunca reclamou de nada.
Como se soubéssemos que muita coisa estava por vir além do
h o r i z o n t e.

Horizonte, belo e infinito, bastava abrir as portas e as janelas e podíamos apreciar, sonhar...
Cada amanhecer anunciando um novo ciclo, dando oportunidade a todos de
 recomeçar dia após dia.
 Os etéreos crepúsculos que se desenhavam pelo céu e se moviam para as mais longínquas montanhas, pincelando o céu em  matiz  indescritível.
A chuva que se aproximava moldando as montanhas e descortinando as ondas mansas  da represa.
O vai-e-vem incansável das ondas provocando pequenas arrebentações e espumas flutuantes.
Os arco-íris tantos, que nos encantava depois das chuvas de verão.
A estrela cadente que atendeu os nossos pedidos.
A longa estrada de terra que circundava a região montanhosa, de mata densa, permitindo nossas tantas e tantas idas e voltas. 

São tantas lembranças que nos traz nostalgia, 
eternamente.
Atualmente papai e mamãe não estão mais conosco, mas
tenho certeza que Deus os tem em paz em algum lugar muito agradável.
Somos só nós cinco, cada um constituiu família e nem todos moram na mesma cidade.
E fica cada vez mais difícil reunirmos todos como acontecia antigamente.
Mas quando isso ocorre, basta um abraço, um apelido, uma frase, uma palavra ou alguma história da nossa infância e temos a certeza que somos os mesmos cinco dos tempos de Ibiúna.

Por essa razão, eu resolvi rascunhar algumas histórias daquela época, tentando expressar  desta maneira o profundo sentimento de gratidão.
Primeiramente a DEUS que nos protegeu, orientou nossos passos e nos deu a oportunidade de viver num lugar tão belo e inesquecível.
 Com muita gratidão, carinho e amor incondicional:
 ao papai e à mamãe, nossa essência.
à minha irmã e aos meus três irmãos, pilares da minha vida.
ao meu esposo e à minha filha, essência do meu dia a dia.
com muito carinho a todas as demais pessoas da nossa família, cunhado, cunhadas, sobrinhos e sobrinhas.
a todas as pessoas que fizeram parte da nossa longa jornada.
especialmente à família Sibille , proprietários daquelas terras e pessoas de extrema importância na nossa vida.
e tantas outras pessoas, cuja importância e gratidão são eternas e que serão contadas em algum momento dos meus escritos.


Talvez ninguém as leia, mas são coisas  do fundo do meu coração e das minhas doces lembranças.
As coisas não tão boas eu descartei e alguns dos acontecimentos  pitorescos e interessantes estarão inclusos nesse blog sob o título
Burburinhos da Roça e Muito Mais  
 e
 conto para você.

dezembro 04, 2010

João Cabral de Melo Neto - Rios Sem Discurso

Rios Sem Discurso 

Quando um rio corta, corta-se de vez 
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma;
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

 Melo Neto, João Cabral, 1920 - 1999
Rios Sem Discurso in A educação pela pedra e depois
Rio de Janeiro: Nova Fronteira 1997
p.21

Victor Hugo - O Nosso Infinito

O Nosso Infinito 
Há ou não um infinito fora de nós? 
É ou não único, imanente, permanente, esse infinito; necessariamente substancial pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a matéria, limitar-se-ia àquilo; necessáriamente inteligente, pois que é infinito, e que, se lhe faltasse a inteligência, acabaria ali? Desperta ou não em nós esse infinito a ideia de essência, ao passo que nós não podemos atribuir a nós mesmos senão a ideia de existência? Por outras palavras, não é ele o Absoluto, cujo relativo somos nós? 














Victor-Marie Hugo - França 1802-1883
O Nosso Infinito, in: Os Miseráveis

A grandeza da democracia consiste em não negar, nem renegar nada da humanidade. Ao pé do direito do homem, pelo menos ao lado, há o direito da alma. 
A lei é esmagar os fanatismos e venerar o infinito. Não nos limitemos a prostrar-nos debaixo da árvore da Criação e a contemplar os seus imensos ramos cheios de astros. Temos um dever: trabalhar para a alma humana, defender o mistério contra o milagre, adorar o incompreensível e rejeitar o absurdo, não admitindo em coisas inexplicáveis senão o necessário, tornando sã a crença, tirando as superstições de cima da religião, catando as lagartas de Deus. 

Pôr o infinito de baixo em contacto com o infinito de cima, por meio do pensamento, é o que se chama orar. 
Não tiremos nada ao espírito humano; é mau suprimir. O que devemos é reformar e transformar. Certas faculdades do homem dirigem-se para o Incógnito, o pensamento, a meditação, a oração. O Incógnito é um oceano. Que é a consciência? É a bússola do Incógnito. O pensamento, a meditação, a oração são tudo grandes irradiações misteriosas. Respeitemo-las. Para onde vão essas majestosas irradiações da alma? Para a sombra, quer dizer, para a luz. 

Ao mesmo tempo que fora de nós há um infinito não há outro dentro de nós? Esses dois infinitos (que horroroso plural!) não se sobrepõem um ao outro? Não é o segundo, por assim dizer, subjacente ao primeiro? Não é o seu espelho, o seu reflexo, o seu eco, um abismo concêntrico a outro abismo? Este segundo infinito não é também inteligente? Não pensa? Não ama? Não tem vontade? Se os dois infinitos são inteligentes, cada um deles tem um princípio volante, há um eu no infinito de cima, do mesmo modo que o há no infinito de baixo. O eu de baixo é a alma; o eu de cima é Deus.

Cecília Meireles - A Arte de Ser Feliz

A Arte de Ser Feliz

 Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa, e sentia-me completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? quem as comprava? em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? e que mãos as tinham criado? e que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém minha alma ficava completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não a podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu que participava do auditório imaginava os assuntos e suas peripécias _ e me sentia completamente feliz.

Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E  eu olhava as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros, e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos: que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Às vezes, um galo canta. À vezes, um avião passa. tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


Meireles, Cecília.
in: Escolha o Seu Sonho. São Paulo  ed. Record. 2005. p. 20